Uma lição de vida

 

“Não tenho compromisso com o erro”

Juscelino Kubitschek

 

O Deputado Chico Pinto havia sido preso porque, na Câmara, fez um discurso violento contra o General Augusto Pinochet.

Fui à cadeia visitá-lo e passei a mandar os jornais, pela manhã, o almoço, enfim, dar-lhe assistência.

Afinal, eu pensava a mesma coisa que ele a respeito do bandido do Pinochet, que estava cometendo as maiores barbaridades no Chile.

Num jantar em casa do Ildeu, com Victor Nunes Leal, Hugo Napoleão, Carlos Murilo e mais algumas pessoas, houve um comentário sobre a prisão. E o Juscelino comentou:

_ Este Chico Pinto deve ser comunista.

Eu retruquei:

_ Espera lá, Juscelino. Ser comunista é um ponto de vista, uma posição política na vida de uma pessoa, mas, se você fala assim no sentido pejorativo usado pelos milicos, acho que deve se aprofundar mais e procurar saber a razão da prisão para dar a sua opinião que é muito importante, politicamente.

O Chico Pinto é um excelente parlamentar, tão corajoso que fez um discurso espinafrando esse ditador monstruoso, em plena ditadura nos nossos dois países. Foi preso porque teve o que quase ninguém tem no Congresso: peito, coragem, raça.

Dias depois, mandei ao Juscelino o discurso do Chico Pinto, com uma carta:

 

Meu caro amigo Juscelino:

 

Seguem os comprovantes do que eu falei naquela noite, em casa do Ildeu.

Tenho a preocupação de que as pessoas sejam vistas exatamente como são, principalmente pelas pessoas que eu admiro. São tão raras as criaturas corretas, dignas, que não me conformo que nem dessas poucas sejam reconhecidas as qualidades.

Numa época em que a moda é ser “sacristão”, “Maria vai com as outras”, por comodismo ou por medo, encontrar um homem com o valor intelectual e a coragem moral de um Chico Pinto é quase um milagre.

Homens bacanas como você não podem se deixar confundir. Há interesse, por parte de alguns, que notícias maldosas se espalhem para diminuir o prestígio popular, a admiração intelectual e a gratidão ao parlamentar que teve a audácia de representar com destemor o seu papel, criticando com veemência o assassino bandido General Pinochet. E, por ter dito a verdade, está preso.

A sede de democracia  nas pessoas que nasceram para  a verdadeira liberdade não permite que fiquem mudas enquanto, em algum lugar no mundo, alguém é torturado ou injustiçado.

A nossa marcha é para um futuro de liberdade. Qualquer pedra no caminho deve ser suprimida. Lembro-me de uma frase de Saint-Exupéry: O viajante que sobe uma montanha na direção de uma estrela, se se deixa absorver pelos problemas da escalada, está arriscado a esquecer qual a estrela que o guia.”

É isto aí, meu querido amigo.  Saibamos separar o joio do trigo.

Desculpe a persistência na defesa do meu amigo Chico Pinto, mas o faria com o mesmo entusiasmo e força se alguém ousasse dizer a seu respeito alguma inverdade.

 

Meu carinhoso abraço.

17/2/75 

Vera

 

Poucos dias depois recebi a resposta, um verdadeiro documento de altivez e humildade, sentimentos próprios dos homens realmente grandiosos, verdadeiramente notáveis.

 

 

Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1975

  

Minha querida Vera,

 

A sua carta de 17 de fevereiro é um mimo. Diriam hoje, melhor, que é uma jóia. Mas eu prefiro ficar com aquela expressão.  Ela está agradável e sensibilizou-me tanto que mesmo no tumulto de um escritório que parece sucursal do meu antigo gabinete político, furto uns momentos para lhe mandar um abraço muito afetuoso e a expressão da minha grande admiração pelo seu caráter, pela sua lealdade, em suma, por todas as qualidades que fazem de você uma criatura sempre presente no coração dos amigos.

Você se referiu a mim com uma expressão “bacana” e parece que o elogio veio direto ao meu espírito, porque esta foi a primeira vez que alguém se lembrou de me dedicar um adjetivo que é geralmente adotado para os  jovens que estão ainda na alvorada da vida.

Li, com muito interesse, a documentação que você me mandou. Sempre tive, quando no governo, um pensamento: “Não tenho compromisso com o erro”. Talvez tenha sido esta uma das razões que me impediram de errar muito. Inspirando-me nesta sentença, quero lhe confessar que volto atrás nas restrições que fizera ao seu amigo. Modesto, bravo, sem nenhum exagero na colocação de sua filosofia, ele encarna realmente um pensamento positivo, uma filosofia democrática.

Foi bom que você tivesse insistido em me procurar mais uma vez sobre esse assunto porque, além de se qualificar mais alto ainda no meu conceito, você me obrigou a ser justo e a retificar impressões que estavam impregnadas pela propaganda tele-dirigida.

Irei a Brasília dentro de poucos dias e como sempre a procurarei.

Os antigos, quando iam à Grécia, nunca deixavam de visitar a Fonte da Castália, a fim de beber inspiração. Você representa para nós, os seus amigos, o que para os velhos gregos significava a Deusa dos Poetas.

Prepare o cafezinho para uma palestra com que você me premiará na próxima viagem.

                                        Do

                                                  Juscelino Kubitschek

 

Vera Brant

Escritora